Contos

Desmedida

Mainha prepara o café da manhã todos os dias, às 5h, rigorosamente assim. Acorda e canta com os galos, porque é feliz. Nunca reclamou da vida, desatinou ou embruteceu, apesar da dureza que passou. Teve de criar sozinha dois filhos, revezando com a minha tia, também bondosa, que vinha ficar com a gente em casa. Tia Laura, solteirona, ainda continua adulando os “filhos postiços”, como ela nos chama, só que repugnamos o seu cuidado excessivo, tratando-nos como crianças. Mas isso é o de menos, porque ela nos encheu de amor, da dádiva do carinho, do zelo. Sempre que posso, vou visitá-la. E ela faz uma recepção daquelas, com bolo e café no bule. A prosa passa de horas, perco o tempo, amando ser amada… Nunca tive o amor de pai, aliás não sei do que se trata. O tal genitor nos abandonou (ou nos trocou por bebida). Logo no meu terceiro ano de vida ele partiu. Não deixou saudades. Não lembro sequer de seu rosto. Muito menos o meu irmão, que tinha somente um ano no tempo do abandono. As más línguas dizem que ele queria fugir da responsabilidade e preferia vagabundar. Mas talvez ele seja doente, ou coisa que o valha. Já não me interesso por novidades a seu respeito. Deve bem morar em outro Estado. Nunca nos procurou, e é melhor assim. Artur, meu irmão, tem ojeriza a tocarmos no nome do genitor. Para ele, é como um lixo inservível. Tem ódio à sua figura. E me recrimina sempre que bebo, porque tem medo de eu me tornar como nosso genitor… Então, desde muito cedo aprendi a ser independente. Saía pelas ruas vendendo doces preparados por mainha, na porta de bares, nas faculdades, nos locais mais movimentados. Mainha ficava com o coração na mão, mas precisávamos – e ela dava força a minha verve de autônoma. Eu queria mostrar, também, que era capaz, e queria tirar-nos do atoleiro das contas atrasadas. Mainha, sim, deu todo o suporte emocional de que precisávamos. Não sentimos falta de pai algum. Aliás, quando ele ainda estava presente, batia nela até sangrar – essa é a história que sei por minha avó. Ela nunca fraquejou, mesmo trabalhando em casa de família e dando conta da nossa humilde residência. Perdi a conta das vezes que a vi chegar do trabalho, lavar roupa e engomar. Tudo numa delicadeza ímpar. Não fazia diferença entre o trabalho remunerado e a sua casa; aliás, talvez tivesse ainda mais zelo com as suas coisinhas. Mainha é meu mote para a poesia. É ela quem me dá substância para viver. A maior entusiasta dos meus livros. E diz que um dia serei a maior poeta que esse Brasil já conheceu. Exagero de mãe, por amar assim, desmedida.

Adriano Espíndola Santos

Adriano Espíndola Santos é autor de “O sussurro cálido da negação”, “Flor no caos”, “Contículos de dores refratárias”, “o ano em que tudo começou”, “Em mim, a clausura e o motim”, “Não há de quê”, “Amparo secreto”, “Viver morrendo” e “Arraia-ralé”. Advogado. Mestre em Direito. Especialista em Escrita Literária e em Revisão de Textos. Membro do Coletivo Delirantes. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto. instagram.com/adrianobespindolasantos/ e escreve no Crônicas Cariocas às sextas-feiras.

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